IDEOLOGIA e BIOLOGIA
How can I tell what I think until I see what I say? (E. M. Forster)


Domingo, Fevereiro 08, 2009  

Dizer que a consciência está constituída como uma história é o mesmo que dizer que ela é uma geradora de mitos.
Nossa vida é mítica, pois ela está para nós exatamente como os mitos gregos, os romances e os filmes. Estamos dentro de uma história como uma personagem, mas aí é que está: nós nos vemos como uma personagem, nós nos reconhecemos na personagem, nós somos coerentes com a personagem, enquanto de fato não passamos de um complexo multicêntrico de padrões neurais. Em outras palavras: vivemos através da personagem, mas não somos a personagem. Nós somos de carne e osso, a personagem é virtual.
Para distinguir essa personagem do eu multicêntrico vou chamá-la de persona, a partir da terminologia junguiana.
O ser humano se orgulha de ser coerente, mas essa coerência será sempre em relação à persona que ele julga ser. Na verdade, nós nos esforçamos para que a persona seja coerente. Nós nunca o somos, embora geralmente não nos demos conta.
Isso me lembra a história de X., um sujeito que conheci, um bom homem, mas um bom homem mais porque não sabia dizer “não” do que por ser bom por natureza. A grande maioria das pessoas o admirava muito, exceto algumas poucas de um círculo mais íntimo que deparavam, vez ou outra, com uma desconcertante insensibilidade. Ele era ao mesmo tempo extremamente encantador e frio por dentro. Certa vez aconteceu de X. emprestar dinheiro para um sujeito sobejamente conhecido por nunca devolver os empréstimos que recebia. Os amigos se indignaram: “Como é que você empresta para um sujeito desses? Você nunca vai voltar a ver a cor do seu dinheiro”. X. deu de ombros e respondeu filosoficamente: “Se eu não emprestasse o dinheiro eu não seria X.”.
Quem conhecesse X. como eu saberia que, se não houvesse testemunhas, ele não faria o empréstimo. Agora, a partir do momento em que passou a existir pelo menos uma testemunha (a própria pessoa pedindo o dinheiro), ele não poderia mais negá-lo, senão ele não seria X.
Portanto, para X., o Bem não era impessoal, objetivo, como para Kant, mas fundador de uma relação transubjetiva que determinava o caráter de sua persona. O modo sujeito de X. era bom. Seu modo prático deslizava por entre as estruturas transubjetivas que constituíam sua persona como uma narrativa. Seu modo ideológico tendia a ser consistente com seu modo sujeito.
Assim como X, nós deslizamos, como práticos, por entre as estruturas transubjetivas que nos constituem. Os pilares, as referências de nossa história são as estruturas transubjetivas, geralmente justificadas por ideologias.

posted by Roberto Velloso Eifler | 5:01 PM
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Quarta-feira, Fevereiro 04, 2009  

Quando digo que o indivíduo está constituído como uma narrativa quero dizer que a consciência funciona como uma história. O próprio António Damásio, em O Mistério da Consciência, usa a palavra história para expressar a maneira pela qual a consciência humana percebe a si mesma:
“Contar histórias, no sentido de registrar o que acontece na forma de mapas cerebrais, é provavelmente uma obsessão do cérebro e talvez tenha início relativamente cedo, no que concerne tanto ao processo evolutivo como à complexidade das estruturas neurais necessárias para criar narrativas. Contar histórias precede a linguagem, pois é, na verdade, uma condição para a linguagem, que se baseia não apenas no córtex cerebral mas em outras partes do cérebro, e no hemisfério direito assim como no esquerdo”.
Para uma topologia do indivíduo poderíamos usar muito bem os níveis de consciência definidos por Damásio, particularmente a distinção que ele faz entre self central e self autobiográfico. A sensação de continuidade da consciência é proporcionada pelo self central, enquanto a noção de identidade é dada pelo self autobiográfico. Eu só tenho a acrescentar que o self autobiográfico não é o todo homogêneo que pode parecer à primeira vista, mas um aglomerado de complexos (como gostava de dizer Jung) em que se destacam a instância do prático, a do sujeito e a do crente. Em outras palavras, o self autobiográfico é multicêntrico, com determinado número de padrões neurais comuns aos vários centros, dando a impressão de unidade. Todos temos a experiência de pessoas conhecidas que parecem “ter outra por dentro”. Os casos extremos são os de múltipla personalidade, já no campo da psiquiatria.
Por outro lado, a história a que me refiro não é exatamente a mesma de Damásio. Este fala de um relato imagético, não verbal, de sequências de eventos cerebrais, um relato próprio do indivíduo, ao passo que eu me refiro a uma história transubjetiva (envolvendo não só o indivíduo como o seu meio social), que poderia ser chamada de segunda ordem em relação à história de Damásio. De qualquer modo, só fiz a referência à obra de António Damásio para chamar a atenção para o arranjo funcional do cérebro, que está estruturado como contador de histórias.

posted by Roberto Velloso Eifler | 9:27 PM
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Domingo, Fevereiro 01, 2009  

Acho que o item 56, que encerra o último post, é por onde devo recomeçar:

“Os seres humanos, que se pensam como indivíduos, são ao mesmo tempo práticos, sujeitos e crentes”.

Quando digo que o indivíduo é ao mesmo tempo prático, sujeito e crente, estou postulando que ele tem três personalidades, porque é como se tivesse três diferentes centros de ação dentro de uma única mente, considerando-se, ademais, que esses três centros de ação, como regra, não são coerentes entre si.
Não deixa de ser espantoso como o ser humano consegue pensar que é um só, isto é, que tem apenas uma personalidade, enquanto simultaneamente age como se fosse três pessoas diferentes, alternando as atitudes de uma para outra sem se dar conta disso e, pior, sem que os demais tampouco se deem conta, atribuindo as mudanças quando muito a coisas do tipo “humor” ou “temperamento”. É essa a magia da mente, a de dar a impressão de continuidade, de integridade, à nossa personalidade. A mente é única, mas “aquilo” que se pensa através dela não o é.
Essa ilusão de continuidade de si mesmo é que constitui o indivíduo como uma narrativa.

posted by Roberto Velloso Eifler | 3:24 PM
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Sábado, Janeiro 24, 2009  

(Continuação)
55- Dentro da dimensão tática, isto é, em nossas atitudes e decisões do dia-a-dia, nós somos práticos de duas maneiras diferentes e simultâneas: somos práticos idiotípicos e práticos arquetípicos. A prática idiotípica se refere às ações condicionadas pelo que usualmente chamamos de caráter, ou personalidade, do indivíduo. O caráter expressa as consequências desenvolvimentais da herança genética interagindo com as consequências do meio ambiente. Ele não é nem puramente nature nem puramente nurture. A prática arquetípica se refere às ações desencadeadas pelo repertório das “maneiras de fazer” incrustado na natureza humana, estruturadas sobre um tipo de cálculo das relações de forças que Certeau chama de “tática”, em contraposição à “estratégia”, que é um tipo de cálculo que se exerce a partir de um lócus (a nacionalidade, o time de futebol, a ideologia) e que eu relacionei à estrutura transubjetiva. A prática arquetípica não tem lócus, não tem base onde concentrar suas forças, e tem que jogar constantemente com os acontecimentos para transformá-los em “ocasiões”. (Eifler, 20/10/07)
56- Os seres humanos, que se pensam como indivíduos, são ao mesmo tempo práticos, sujeitos e crentes. Dotados de senso tático, são movidos por estruturas transubjetivas enquanto creem em ideologias. O erro teórico de Foucault foi confundir dimensão tática com dimensão transubjetiva, e o erro teórico de Althusser foi confundir dimensão transubjetiva com dimensão ideológica. (Eifler, 14/10/07)

posted by Roberto Velloso Eifler | 7:06 PM
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Sábado, Janeiro 17, 2009  

(Continuação)
50- As ideologias são os recursos semióticos humanos para conquistar aliados e impor autoridade. Elas são sempre conscientes. Poderíamos dizer que as ideologias são as paixões conscientes de forças inconscientes, assim como poderíamos dizer também que as ideologias são mitologias justificadoras da vontade de poder. Ao mesmo tempo, em sua dimensão noológica, não humana, as ideologias precisam do ser humano para existir e para competir com outras ideologias pela sobrevivência. Chamo a atenção para o sentido figurado, antropomórfico, do “precisam”. Não há intencionalidade nisso. As ideologias precisam da mente humana assim como os vírus da AIDS precisam dos linfócitos T. Mas, ao contrário do vírus, que é um parasita, a ideologia é um simbionte. Quanto mais forte a ideologia, mais forte será o homem. Quanto mais forte o homem, mais forte a ideologia. Os dois se desenvolvem juntos, mas em dimensões diferentes. Homem e ideologia são teleonomicamente heterogêneos. O fato de a ideologia coincidir às vezes com a estrutura transubjetiva não exclui sua heterogeneidade. (Eifler, 02/10/07)
51- Nós, que nos pensamos como indivíduos, nos movemos no espaço social em três dimensões distintas e simultâneas. Nós somos práticos na dimensão tática, somos sujeitos na dimensão transubjetiva e somos crentes na dimensão ideológica. (Eifler, 14/10/07)
52- Quando falo em dimensão tática, estou me referindo àquele plano do espaço social em que nos movemos por lógicas operatórias que se desenrolam nos interstícios das estruturas formais e que expressam uma rede de microformalidades oportunísticas que remontam a tempos imemoriais. São o que Michel de Certeau denominou de “maneiras de fazer” e que engloba as inventividades, as improvisações, as astúcias, todo um repertório de esquemas de ação que vêm à tona no momento oportuno e que não cabem no discurso. Estão contidas no que Wittgenstein chamou de “linguagem cotidiana”, que é mais rica que a linguagem erudita e contém mais complexidades lógicas do que a filosofia é capaz de expressar. Se temos o direito de falar em “inteligência prática”, não se trata aqui da racionalidade como a conhecemos, mas de uma inteligência atávica, gravada na memória filogenética, da qual a racionalidade não passa de um subproduto. (Eifler, 14/10/07)
53- Não podemos confundir a dimensão tática com a dimensão transubjetiva, que é o plano das estruturas formais (poder, moral, etc.), com sua grade inata de posições relativas hipostasiadas em personalidades e instituições, da qual já falamos em posts anteriores. A dimensão transubjetiva constitui o “espaço social” de Bourdieu, no qual os indivíduos se reconhecem uns aos outros como “sujeitos” (Althusser) e ao qual se submetem livremente, gerando um acordo tácito, pré-reflexivo, sobre o sentido do mundo (o “conformismo lógico” e “moral” de Durkheim). Por ser uma dimensão de posições relativas, o espaço social é naturalmente hierárquico em todas as suas objetivações (socialidade, moral, cultura, etc.). É nos interstícios da dimensão transubjetiva que a dimensão tática introduz suas operações marginais, suas improvisações, suas artimanhas. Por outro lado, a dimensão transubjetiva só se objetiva através da dimensão ideológica. (Eifler, 14/10/07)
54- A dimensão ideológica é o plano virtual onde se dão os embates, os ajustes de contas, as submissões, as recombinações resultantes da dinâmica ininterrupta do espaço social. Ela é composta pelos seres logomórficos nascidos da cultura humana mas, por outro lado, não humanos, envolvidos em sua própria luta de sobrevivência num campo de forças em que fazem uso dos seres humanos que pensam usá-los. (Eifler, 14/10/07)
(Continua)

posted by Roberto Velloso Eifler | 3:15 PM
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Terça-feira, Janeiro 13, 2009  

(Continuação)
39- As estruturas transubjetivas correspondem aproximadamente ao que Althusser chama de “ideologia em geral”, Bourdieu chama de “estruturas objetivas”, Wittgenstein chama de “costumes” (Gepflogenheiten) e Lacan chama de “ordem simbólica”, cada um dentro de seu sistema de ideias. Todas essas expressões referem-se a uma entidade a que os indivíduos se sujeitam naturalmente e que lhes impõe suas normas de forma tal que essas lhes surgem como “evidências” que eles não podem deixar de reconhecer: “É evidente!” “É exatamente isso!”. (Eifler, 22/09/07)
40- Essa evidência é determinada pelo que Althusser chama de efeito ideológico elementar, mas que Guilhon Albuquerque prefere denominar efeito de sujeito, excluindo a referência ideológica. (Eifler, 22/09/07)
41- É através do efeito de sujeito que indivíduos se constituem como sujeitos, se reconhecem uns aos outros como sujeitos e se vêem como pertencentes a um sistema a que se submetem livremente, com a garantia implícita de que, agindo dessa maneira, tudo ficará bem porque é assim que as coisas têm que ser. (Eifler, 22/09/07)
42- Diferença entre estrutura transubjetiva e ideologia, diferença essa ausente em Althusser, que confunde as duas. A estrutura transubjetiva é que é inconsciente, embora seus conteúdos possam tornar-se conscientes, que é quando aparecem como “evidências” para o sujeito, como referido acima. (Eifler, 22/09/07)
43- As ideologias são sistemas de ideias e, como tal, conscientes, considerando-se as ideias como entes que se desenvolveram a partir da biosfera assim como os seres vivos se desenvolveram a partir do mundo inorgânico. (Eifler, 22/09/07)
44- Quando mencionei que o homem opera no plano dos homens com outros homens enquanto a ideologia opera no plano das ideologias com outras ideologias, quero avisar que não estou requentando aquele velho conflito entre o “psicológico” e o “sociológico”. Se é para estabelecer um divisor de águas, eu diria que a diferença se situa entre o mental e o noológico. (Eifler, 02/10/07)
45- O mental compreende o subjetivo e o transubjetivo. O subjetivo se refere às idiossincrasias do indivíduo (sua herança genética moldada pela educação). O transubjetivo se refere às estruturas inconscientes que determinam a vida social do sujeito. Já o noológico se refere às ideias, tanto isoladas quanto em sistemas. (Eifler, 02/10/07)
46- Tanto o mental como o noológico se expressam através de crenças. Existem três tipos de crenças: as crenças práticas, as crenças racionais e as crenças emocionais. (Eifler, 02/10/07)
47- As crenças práticas são evidências do mundo que se impõem por si mesmas, sem necessidade de justificação. Por exemplo: “Eu sou Fulano de Tal”, “O gramado é verde”, “O sol está brilhando”. São primariamente não verbais. (Eifler, 02/10/07)
48- As crenças racionais são evidências que resultam do raciocínio dedutivo baseado em axiomas empíricos (as “koiná axiômata” de Aristóteles): “Todos os homens são mortais”, “O sol aparece todos os dias”. São sempre verbais, embora possam ser apenas pensadas e não expressas. (Eifler, 02/10/07)
49- As crenças emocionais são evidências criadas pelo mecanismo de imprinting, onde uma carga de emoção (o marcador somático de António Damásio) é “ligada” a um objeto ou a uma ideia. As paixões amorosas, as paixões futebolísticas, as religiões e as ideologias são exemplos bem conhecidos. (Eifler, 02/10/07)
(Continua)

posted by Roberto Velloso Eifler | 8:33 PM
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Domingo, Janeiro 11, 2009  

(Continuação)
34- Realizando-se a interação dos animais sociais através de acoplamento estrutural, a consequência é o surgimento de entidades que pertencem tanto ao mundo “objetivo” como ao mundo “subjetivo”, mas que, definitivamente, não estão no campo da consciência. Essas estruturas “entre dois mundos”, que também podem ser chamadas de transcendentais comuns, determinam a evolução congruente do sistema e dos indivíduos que o constituem, de modo que os indivíduos só se reconhecem como tal através do sistema que os inclui. Isso faz com que tanto os dominantes como os dominados tenham os mesmos “princípios de visão e de divisão”, como gostam de dizer os sociólogos. (Eifler, 15/09/07)
35- Em outras palavras, os seres humanos estão estruturados geneticamente para serem dominantes ou dominados. Não têm outra opção. A par disso, são interpelados pela sociedade a desempenharem papéis de dominantes ou dominados, o que ocorre de forma inconsciente e independentemente do viés genético. (Eifler, 15/09/07)
36- Os sistemas de ideias (que falam de dominantes e dominados) pertencem a outro mundo (a noosfera), no qual evoluem também por estratégias evolutivamente estáveis que são operacionalmente diferentes das estratégias evolutivamente estáveis dos sistemas sociais. Dito de outra forma: as ideias evoluem independentemente das mentes, embora dependam das mentes para existir. As ideias se fortalecem fortalecendo os indivíduos e vice-versa, mas não há correspondência entre a finalidade da ideia e a finalidade do indivíduo. Qualquer ideologia serve para qualquer objetivo. (Eifler, 15/09/07)
37- Para explicar a operacionalidade da estrutura intersubjetiva, Althusser introduziu a categoria de sujeito. Sujeito é o indivíduo que faz parte de um sistema socialmente estável. A categoria de sujeito preexiste a cada indivíduo concreto e é uma condição de sua existência social. Isso significa que a constituição do sujeito não é um processo datado na vida do indivíduo, ao contrário; o indivíduo é - como diz Althusser - sempre já sujeito. Em outras palavras, os indivíduos estão desde sempre participando de um sistema de referências em que já ocupam o lugar de sujeito. É o caso, por exemplo, do recém-nascido, que já vem à luz identificado e posicionado na estrutura da família. (Eifler, 18/09/07)
38- Em resumo: no processo de hominização, indivíduos de uma população mantida por estratégias evolutivamente estáveis tornam-se sujeitos de um sistema socialmente estável mantido por estruturas transubjetivas. (Eifler, 18/09/07)
(Continua)

posted by Roberto Velloso Eifler | 9:13 AM
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Terça-feira, Janeiro 06, 2009  

(Continuação)
28- A energia em si (enérgeia kath’ hautén) do númeno, que está provavelmente localizado no tronco cerebral, ativa três faculdades neurofisiológicas primárias, a do conhecimento, a da vontade e a do gosto. Cada uma dessas faculdades emite um impulso em busca da própria falta. Esses impulsos, sob a forma de feixe, atravessam as estruturas eidéticas, onde são moldados ao mundo (óikos) pelo mundo (óikos), e, já com propriedades cognitivas, “investem” os objetos do ambiente exterior. “Investimento” também é uma metáfora, assim como “desejo”. O termo certo é intencionalidade. A metáfora do desejo encobre a intenção de entender, a intenção de avaliar e a intenção de ser (que também significa possuir, controlar). (Eifler, 22/08/07)
29- A intencionalidade do ser vivo incorpora o objeto ao seu mundo. Aqui eu emprego a distinção de Francisco Varela entre mundo e ambiente exterior. Os objetos estão soltos, sem significado, no ambiente exterior, mais ou menos como Heidegger descreve os entes intramundanos (innerweltlich), enquanto o mundano (weltlich) só passará a existir a partir da intencionalidade. Em outras palavras, o mundo é o ambiente exterior com significado. (Eifler, 22/08/07)
30- O ser vivo, como auto-organização recursiva (Morin) ou fechamento operacional (Maturana), tem sua abertura com o mundo através da intencionalidade. O circuito recursivo é autônomo e ao mesmo tempo depende do mundo para sua autonomia. Ser e mundo formam uma união indissociável através da abertura. (22/08/07)
31- Maturana chama de epigênese a transformação estrutural de um organismo que acontece concomitantemente com a transformação estrutural do meio em que ele se encontra. Vou reservar esse termo para as alterações de posição da intencionalidade ao longo da grade estrutural determinadas pelas interações com o mundo. Isso quer dizer, na linguagem de Chomsky, que todo ser humano tem a competência para ser dominante ou dominado, ao passo que seu desempenho (seu comportamento epigenético) como dominante ou dominado dependerá não só de sua estrutura inicial como da história de suas interações com o mundo. (Eifler, 28/08/07)
32- Uma estratégia evolutivamente estável (Maynard Smith) pode ser definida como uma estratégia comportamental que, quando adotada pela maioria dos indivíduos de uma população, não poderá ser superada por estratégias alternativas. (Eifler, 01/09/07)
33- A partir do conceito de estratégia evolutivamente estável (EEE) podemos dizer que o que hoje reconhecemos como humanidade se constituiu através de uma EEE ao longo de alguns milhões de anos de transformações neurofisiológicas e anatômicas. Essa humanidade é formada por populações organizadas em sistemas socialmente estáveis (SSE). (Eifler, 07/09/07)
(Continua)

posted by Roberto Velloso Eifler | 9:31 PM
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Domingo, Janeiro 04, 2009  

Vou continuar expondo algumas ideias básicas já desenvolvidas por mim neste blog para, a partir delas, chegar a conclusões que, embora eu ainda não saiba quais são, me parecem estar maduras. Eu tinha parado no item 22.

23- A estrutura da moral tem cada vez sido mais estudada pela neurociência. Em Moral Minds, de 2006, o psicólogo Marc Hauser, de Harvard, aproxima definitivamente a faculdade moral da faculdade da linguagem assim como postulada por Chomsky, com seus dois conceitos de competência e performance. A competência moral é inata e pode-se dizer que é regida por princípios, enquanto a performance é adquirida, determinada pela cultura e regida pelo que se pode chamar de parâmetros.
24- Assim como a bateria elétrica, o númeno é a origem e fim de si mesmo, ou, na linguagem aristotélica, causa eficiente e causa final. Podemos comparar a diferença de tensão dentro da bateria com a coisa em si. Nós nunca conheceremos a coisa em si porque ela é a forma pela qual conhecemos as coisas. Mas, como a diferença de intensidade na corrente elétrica equivale à diferença de tensão na bateria, nós temos uma chance de chegar, por analogia, ao conhecimento da coisa em si. O problema é que esse conhecimento, no fundo, é um sentimento. O númeno é energia e, por isso, emoção, sentimento. Não há racionalidade no númeno. Podemos usar a racionalidade para nos aproximarmos do númeno, mas nunca encontraremos racionalidade nele. Eis porque jamais chegaremos à definição de verdade: porque a verdade em si é um sentimento. Em outras palavras: só a emoção pode dizer se há verdade na razão. (Eifler, 06/08/07)
25- Como pode existir simulacro de energia pura, uma vez que essa energia não é forma nem proposição? Realmente, a energia é pura emoção. Se um circuito recursivo como uma estrela - o sol - tivesse subjetividade, ele “expressaria” só emoção. No ser humano, o investimento objetal da energia numênica se faz através da estruturação eidética. O que eu quero dizer é o seguinte: a energia (instinto) gerada pelo númeno adquire forma (inconsciente) através das estruturas do éidos, e essa forma é que estará disponível para se acoplar a correspondências (pessoas, idéias, etc.) do mundo exterior. Em outras palavras: a energia do númeno é enformada pela estrutura. (Eifler, 13/08/07)
26- Qual é a diferença entre estruturas e faculdades? As estruturas (a sexualidade, o poder e a moral) são modos através dos quais as faculdades interagem com o mundo, isto é, são grades que modelam as faculdades. Já as faculdades são capacidades ou potencialidades. Faculdade, que deriva do latim facultas, corresponde ao grego dýnamis (potência). O princípio (arché) é o númeno, energia pura que se manifesta através de três faculdades, para as quais usarei a terminologia de Kant, chamando-as de faculdades da alma (Seelenvermögen), a que corresponderiam três faculdades cognitivas (Erkenntnisvermögen). Vermögen é o termo alemão para dýnamis. (Eifler, 19/08/07)
27- As três faculdades da alma (Seelenvermögen), de Kant, são a faculdade de conhecimento, a faculdade da vontade e o sentimento de prazer e desprazer. Essas três faculdades, ativadas pelo númeno, disparam sua energia através das estruturas. Pós-estruturalmente, tais faculdades serão reconhecidas como cognitivas e corresponderão, respectivamente, ao entendimento, à razão e ao juízo. Chamo a atenção para o fato de que mesmo as faculdades cognitivas (Erkenntnisvermögen) permanecem abaixo do limiar da consciência. (19/08/07)
(Continua)

posted by Roberto Velloso Eifler | 10:13 AM
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Sexta-feira, Janeiro 02, 2009  

A partir de hoje vou adotar as regras da reforma ortográfica da língua portuguesa. Não que concorde com elas. Aliás, acho que nunca deveria ter havido reforma ortográfica nenhuma, nem a de 1946. As mudanças ortográficas deveriam acontecer naturalmente a partir do uso comum da língua.

posted by Roberto Velloso Eifler | 4:27 PM
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Quinta-feira, Janeiro 01, 2009  

(continuação)

13- A cognição trabalha com o mundo real (o mundo em que o animal vive) e também com o mundo das idéias (a noosfera).
14- A noosfera (de Morin, a partir de T. de Chardin), equivalente ao Mundo 3 de Popper e aos memes de Dawkins, precisa da mente humana para existir mas tem vida independente.
15- As idéias “pegam”, espalhando-se como vírus. Essa “cola” das idéias se efetua através de dois fenômenos que podem ser definidos por meio de valores: o valor memético e o valor de moda (Eifler, 2007).
16- O imprinting (o mecanismo pelo qual o ganso recém-nascido passa a reconhecer como mãe o primeiro ser vivo que ele enxerga) é o modo de fixar os valores nos seres humanos (o Bem e Mal, ao nascermos, são terminais vazios que serão fixados pelos valores específicos de cada cultura).
17- As idéias têm a propriedade de substituir experiências reais e formar imprintings.
18- Uma idéia pode determinar um valor moral racional que se oponha a um valor moral emocional na mesma pessoa. O sistema moral de Kant é apenas um entre inúmeras possibilidades. O sistema moral marxista-leninista é outro.
19- A mentira é tão importante quanto a verdade nas relações sociais.
20- O noema é a unidade elementar da comunicação prática e se compõe de uma parte explícita (a proposição) e de uma parte implícita (a hipócrise) (Eifler, 11/11/07)
21- Analisando a prova de Fórmula 1 de Interlagos de 2007 sob o conceito de noema, podemos dizer, grosso modo, que “é proibido permitir a ultrapassagem de um companheiro de equipe só para que ele ganhe pontos no campeonato” é a proposição, enquanto que “é permitida a ultrapassagem de um companheiro só para ganhar pontos desde que os procedimentos não permitidos sejam feitos de forma que pareçam permitidos” é a hipócrise. Vejam que os conceitos de noema e de hipócrise só são válidos dentro de um sistema, ou subsistema, de comunicação. Para os indivíduos de fora desse sistema a hipócrise será considerada uma hipocrisia. Será legal, mas imoral.
22- O ato político é essencialmente um ato noemático e há bastante confusão, muitas vezes proposital, entre hipócrise e hipocrisia.
(continua)

posted by Roberto Velloso Eifler | 7:12 PM
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Sábado, Dezembro 27, 2008  

Em primeiro lugar, vamos listar alguns princípios já definidos ao longo do blog:

1- O ser humano é um zoon politikon, isto é, um ser social. Aristóteles percebeu isso com clareza séculos antes das teorias egoísticas de Hobbes e Freud.
2- Em virtude de ser social, o ser humano é um ser moral, o que não tem nada a ver com nenhum tipo de transcendência nem com nenhuma característica essencialmente humana, já que a moralidade é uma estratégia de sobrevivência selecionada pelo processo evolutivo (de Waal, 2006).
3- A capacidade moral pode ser descrita como um instinto (Hauser, 2006), que gera julgamentos instantâneos sobre o que é certo ou errado antes de serem tomadas decisões racionais.
4- Os seres humanos são instintivamente morais (emocionalmente morais) antes de serem racionalmente morais (cognitivamente morais) (R. Wright).
5- Ser moral não significa ser bom. Significa saber o que é o bem (Kant, Crítica da Razão Prática).
6- Antígona sintetiza o drama de todo animal social: o conflito entre a lei humana e a lei divina, entre a lei pessoal e a lei coletiva.
7- Dentro da esfera exclusivamente emocional pode haver conflito entre a moral pessoal e a moral coletiva, assim como pode haver conflito entre a moral emocional e a moral racional.
8- A moralidade emocional é uma estratégia evolutiva dos mamíferos sociais (a partir do altruísmo recíproco e de outros mecanismos).
9- A moralidade racional evoluiu (após o surgimento da cognição) a partir da moralidade emocional. Ela tem duas entradas (inputs): através da emoção e através da racionalidade (considerada como um mecanismo autônomo, principalmente lógico).
10- Todo ser social é um ser hierárquico, todos estamos em posições relativas em relação uns aos outros (o espaço social de Bourdieu).
11- Em qualquer sociedade há uma tendência a preservar o status quo na medida em que todos, inclusive os hierarquicamente inferiores, tendem a ganhar (ou têm medo de perder o pouco que têm) com o grau de interação social então existente (community concern, de Waal 1996).
12- Uma vez organizada uma sociedade através da acomodação de seus grupos de interesse, ela tende a permanecer inalterada indefinidamente, desde que não surja um grupo de interesse suficientemente poderoso para desfazer o equilíbrio social (A. Bentley).
(Continua)


posted by Roberto Velloso Eifler | 4:44 PM
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Domingo, Dezembro 21, 2008  

21/12/08

Me perdoem a comparação, mas foi graças a Wittgenstein que consegui voltar a escrever, praticamente depois de um ano. O “primeiro” Wittgenstein formulou uma filosofia “definitiva”. Depois dela nada mais poderia ser escrito, pois tudo já estava dito. O “segundo” Wittgenstein, muitos anos depois, constatou que sua filosofia não era assim tão definitiva, tinha vários “furos”, e passou a escrever comentários, observações, às vezes até contraditórios entre si, que ele não conseguiu unificar em uma teoria e que publicou assim mesmo, ou permitiu que publicassem.
O exemplo de Wittgenstein me permite formular o seguinte axioma: “Qualquer teoria que eu formular será falsa, mas os insights em que eu basear a teoria provavelmente serão verdadeiros”.
Baseado nisso, vou me concentrar nos insights.
Quaisquer conclusões poderão ser tiradas dos insights, e as conclusões que eu porventura tiver a temeridade de tirar não valerão mais que as conclusões de quaisquer outros sobre os mesmos insights.

posted by Roberto Velloso Eifler | 6:02 PM
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Domingo, Dezembro 14, 2008  

14/12/08

Todo este tempo em que eu não tenho postado nada tenho pensado sobre as questões da moral e da política. Eu estava tentando escrever sobre isso quando, provavelmente por não me sentir à altura do empreendimento, interrompi o blog. Talvez agora eu consiga desenvolver algumas idéias.
Maquiavel é um exemplo (da complexidade do assunto) e não uma solução. O reconhecimento de duas morais (uma moral individual e uma moral política) não passa de uma constatação prática que nada explica. Nem Platão nem Maquiavel. Nem Bentley nem Rawls. Ou talvez se pudesse dizer assim: Rawls estabelece como tem que ser, e Bentley explica como realmente é. Mas tal frase apenas descreve o que acontece; não explica. Não explica por que as coisas funcionam apesar de não serem realmente como devem ser e todos, ou quase todos, aceitarem que seja assim.
Obviamente existe um corte, uma incongruência, entre ideologia e prática política, é fácil aceitar isso agora, principalmente depois do fracasso das experiências socialistas do século XX. Mas o mundo da ideologia (noosfera) e o mundo prático estão indissoluvelmente interligados, e é essa interligação, essa simbiose, que atrai minha atenção. Morin diria que eles são complementares, concorrentes e antagônicos, mas isso também não passa de uma descrição. O mundo de hoje está muito bem descrito por uma série de brilhantes pensadores, mas sinto falta de uma explicação. Por que é assim? Como esses diferentes planos se encaixam de modo a formar uma unidade que — bem ou mal (critérios subjetivos) — evolui?
Vou tentar desenvolver meu pensamento nessa direção. Ainda não tenho uma resposta. Por outro lado, tenho vários fios soltos que parecem estar pedindo para serem interconectados. Vou tentar. Como está no título do meu blog: “Como posso descrever o que penso antes que eu veja o que eu disse?”

posted by Roberto Velloso Eifler | 6:28 PM
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Quinta-feira, Dezembro 04, 2008  

NÓS SOMOS A CONSTITUIÇÃO?

Uma das boas coisas da democracia é a liberdade de expressão. Até se pode questionar, com Karl Popper, se, numa situação-limite em que determinada liberdade de expressão ponha em risco a própria democracia, não se deva cirurgicamente reprimi-la, mas esse felizmente não é o caso.
O que não se pode confundir é liberdade de expressão com liberdade de ação. Eu, por exemplo, como médico, tenho a liberdade de ser a favor do aborto, mas não tenho o direito de praticá-lo. Posso defender a criação de uma lei a favor do aborto, mas seria um criminoso se patrocinasse um aborto na vigência da lei atual. É assim que a democracia funciona.
Quando o juiz Fausto De Sanctis defende que a “Constituição não passa de um documento, que nós somos os valores, e não pode ser interpretado de outra forma: nós somos a Constituição”, querendo com isso dizer que, como juiz, se acha no direito de aplicar a lei de acordo com a sua subjetividade e não de acordo com a Constituição, ele está fazendo exatamente o mesmo papel do médico que, acreditando no benefício do aborto, se atribui o direito de fazê-lo a despeito da lei.
O juiz De Sanctis confunde a prática do direito com a filosofia do direito. No mundo das idéias tudo é permitido, não porque seja uma superestrutura em descompasso com o mundo concreto, mas porque é o campo de batalha que, na democracia, substitui a violência física. De Sanctis cita Carl Schmitt com reverência. Carl Schmitt foi um jusfilósofo brilhante e continua como um dos principais teóricos do estado de exceção e da estrutura da soberania, mas aplicar suas teses ao caso Daniel Dantas seria quase o mesmo que aplicar a leitura fundamentalista da Bíblia à realidade jurídica do mundo ocidental contemporâneo.
As democracias existem, são boas ou nem tanto, e se modificam com o passar do tempo. Uma democracia, ou você a modifica ou você a destrói. Não há meio-termo. E você a modifica seguindo suas regras. Não me parece que o juiz De Sanctis esteja dando um bom exemplo a seus colegas e a outros profissionais que, como eu, seguem as regras enquanto lutam por mudá-las.
O mais constrangedor disso tudo é constatar que não são apenas os adolescentes que se empolgam com idéias que parecem originais e que são contra “tudo isso que está aí”. Idéias são fundamentais, sem dúvida, e a maturidade de uma democracia se mede pela riqueza e variedade de suas idéias. Mas tão importante quanto o acesso às idéias é o conhecimento, que deveria vir com elas, de seu lugar e tempo. Idéias fora de tempo, e de lugar, são quase tão ruins como não tê-las.

posted by Roberto Velloso Eifler | 8:42 PM
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Sábado, Outubro 25, 2008  

O CORONEL QUE SALVOU O ASSASSINO
Assisti estarrecido à entrevista coletiva do comandante do Batalhão de Choque da PM de São Paulo, coronel Eduardo Félix, após o trágico desfecho do caso de cárcere privado de Santo André, em que um indivíduo manteve sob a mira do revólver duas adolescentes, uma delas (Eloá) sua ex-namorada, que acabou assassinada.
Eu não quis acreditar quando, em meio a uma enxurrada de argumentos técnicos, o coronel explicou que seu objetivo era salvar as três pessoas envolvidas e que, para tanto, abrira mão de várias oportunidades de acertar um tiro no seqüestrador. Como assim, as três pessoas? Havia um malfeitor apontando uma arma para a cabeça de duas meninas, e o coronel estava preocupado em salvar a vida dele?
Essa atitude me lembra a de um inesquecível Secretário de Segurança do RS que, após o seqüestro de uma lotação cheia de passageiros, mostrou-se unicamente preocupado com a saúde espiritual do seqüestrador, ao qual saiu abraçado, deixando de lado os seqüestrados.
A identificação com o criminoso pode ser chamada “a doença infantil da psicologia” e será lembrada pela posteridade como o “romantismo do século XX”, adotado principalmente por intelectuais oriundos da classe média, com fantasias libertárias, e ainda hoje empoçado em bolsões acadêmicos do Brasil. O que é inadmissível é um coronel do Batalhão de Choque, aparentemente bem treinado, deixar-se dominar por essa visão romântica do criminoso e assistir, como se nada pudesse fazer, ao assassinato de uma menina de 15 anos. O conceito de bandido é objetivo, determinado pelos atos da pessoa. Subjetivamente, todos somos bons e maus. A subjetividade explica, mas não justifica. Esse é o problema do romantismo psicológico: querer justificar as maldades. Mas, sendo a maldade um ato objetivo, ela não tem justificação. Havia um indivíduo — não interessa seu sexo, sua idade, seu estado psicológico — ameaçando matar outra pessoa. A polícia só pode ter um propósito: eliminar a ameaça à vítima, se estiver dentro de suas possibilidades. E estava dentro de suas possibilidades!
Agora, se é verdade que o coronel Félix acredita no que disse, o que resta a fazer é lhe dar os parabéns. Afinal, ele conseguiu salvar o assassino. Pena que uma jovem inocente acabasse morta, mas esse foi apenas um efeito colateral do sucesso. E a outra menina só levou um tiro no rosto. Nem morreu. Parabéns, coronel. Mas não espere que eu acredite que, se sua filha estivesse no lugar de Eloá, o senhor agiria da mesma forma.

posted by Roberto Velloso Eifler | 7:14 PM
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Domingo, Outubro 19, 2008  

Este é o email que enviei ao Steven Pinker:

Dear Dr. Spinker:


I’m an admirer of your ideas and an attentive reader of your books, but there’s a question that has remained, at least for me, unanswered: Why the primitive languages were syntactically more complex than the modern ones? In other words, why apparently all the ancient languages had declensions, which have disappeared along the time (except for German, which is a modern “primitive language”)?
On the other hand, this “complexity of the primitive” is in direct contradiction to your theory of the central role of the verb in language learning, since the cases (dative, accusative, etc.) practically dispense with verbs in order to know who, whom or where.
In Latin, when someone said “reginam”, any listener understood that “regina” was being the direct object of the claim. Likewise, when someone said “politei” in Greek, any person would have understood “polites” as the indirect object of the claim. I was told that in Arabic there’s a word that means “lion laying”, other that means “lion standing”, other “lion moving”, that’s to say, about a dozen words meaning lions in different states or state-changes.
I can imagine a scenario (obviously pre-Roman) where a official orders a subordinate to take a servant to the queen. He would say: “Servum reginae”, and the subordinate would understand, without verbs, that the direct object (servum) should be taken to the indirect object (reginae).
I’m not suggesting that your verb theory is wrong. On the contrary, it’s fascinating and provocative. What I think is that the syntactical structure that has the verb as its core had emerged later in the language development. Flashes: In the beginning (as other animals): different cries, different meanings. Afterwards: different cases, different meanings. Finally: verbs, coloring the cases and soon assuming control of the syntax.
There’s an apparent paradox in the fact that language has evolved syntactically from a more complex framework to a simpler one. Probably it would be more precise to say that it evolved from a more compact framework to a more differentiated one. Or: a syntax based on nouns has evolved toward a syntax based on verbs.
Like other physical and neurophysiologic structures, language has not only an ontogeny but a phylogeny yet to be found out.
Regards,
Roberto Eifler. - Porto Alegre, Brazil.

posted by Roberto Velloso Eifler | 6:04 PM
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Terça-feira, Junho 03, 2008  

WHO DOES THE AMAZON BELONG TO, ANYWAY?

We live in bad times. It seems like weather is going crazy. The world has been assaulted by unexpected and violent climatic phenomena. Towns wrecked by storms, crowds drowned by tsunamis, floods here, droughts there, global sea level rising dangerously and menacing the waterfront cities: our solid and friendly planet suddenly turned out to be a fragile and disorientated ship which has lost its way while devoured slowly by the rats and bugs living in its entrails.
Who’s to blame? There’s consensus among scientists that these climatic disturbances are caused by global warming. As for warming, most scientists defend that it is brought about by human activities, whereas a small minority argue it’s a natural phenomenon induced by solar variation for instance, considering that our planet has suffered warming and cooling many times before. Whoever is right, there’s a global warming going on. Radicalism aside, common sense suggests that humankind has a contribution to make in so far as the greenhouse effect is concerned. The sensitive matter of deforestation falls within the range of this contribution.
The Amazon encompasses the largest rainforest in the world, more than half of which located in Brazil. Unfortunately, extensive forests have never combined with human progress, as one can deduce from the study of European and American history. The tragic irony of Western people is that they became civilized destroying their forests and only got aware of the forests’ crucial importance after becoming civilized, that is, after destroying them.
A second irony refers to the status of Brazil. As a developing country, marginal in the Western world, its economic growth and consequently its people’s welfare depend in large measure on the spread of productive lands, which is proportionately inverse to forests’ preservation. It’s as if Brazil, though contemporary, were one century late, incapable of moving up because to move is to cause harm. Such peculiar predicament could only end up in deadlock. Voices soared all over the world, focusing on the Amazon. Two opposing stances were outstanding: a nationalist stance, pointing out Brazil’s sovereignty over Amazon, and an internationalist one, summed up by Al Gore’s words: “Contrary to what Brazilians think, the Amazon is not their property, it belongs to all of us”.
As for me, I think it’s foolish to support a kind of nationalistic hysteria, considering above all that successive Brazilian governments have always failed to stop deforestation. On the other hand, as a Brazilian, I get upset about complete internationalization of the Amazon. Consequently, I feel there’s a need to achieve a kind of accord which would safeguard both national ant international interests. World must recognize Brazil’s sovereignty and, at the same time, Brazil would allow international inspection and advisement. In fact, besides being a Brazilian citizen, I’m a world citizen.

posted by Roberto Velloso Eifler | 6:36 PM
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Quinta-feira, Maio 29, 2008  

Após alguns meses de meditação e/ou indefinição e/ou hesitação, estou voltando. Como dizia o Chico Buarque naquela música,

Pode ir armando o coreto e preparando aquele feijão preto
Eu tô voltando...
Põe meia dúzia de Brahma pra gelar, muda a roupa de cama
Eu tô voltando...
Leva o chinelo pra sala de jantar
Que é lá mesmo que a mala eu vou largaaaaaaaar...

Eu tô voltando...
Só que agora em inglês.

Invited by my teacher, Ester Rodrigues, to write about intelligence, I would like to make some personal observations. First of all, I want to stress that the term “intelligence” is not much used in neuroscience, maybe because neuroscience, also called cognitive science, struggles to explain the workings of the human brain, and intelligence is neither a product nor a particular function of the brain. Rather, it’s a psychological index of the brain’s capacity. In other words: neuroscience studies how the brain works, while psychology analyses its fitness.
Psychology loves intelligence. I’m not underestimating it. Psychology is an important area of human culture, only it values too much a typical feature of the human being: the impulse to classify people. Classification is an essential aspect of socialization, but it is also the basis of hierarchization and, consequently, of preconception. Just as you classify people as beautiful and ugly, so too you classify them as smart and stupid. Let’s make it clear: people are really beautiful, and ugly, and smart, and stupid. Classification is a normal part of human social life and its moral aspects deserve considerations that transcend the limits of these comments.
Let’s try a new approach. All people are intelligent. What does happen is that some people are more intelligent than others. Leaving aside Howard Gardner’s theory of multiple intelligences and the most recently developed concept of emotional intelligence (Daniel Goleman), I’d rather focus on the concept of “general problem solver”, introduced by Herbert Simon in the field of artificial intelligence and subsequently absorbed by the cognitive sciences. It was Edgar Morin, a French philosopher, who has made the best use of that concept, applying it to the animal brain and, by extension, to the human one, whom he has called “problems solver machine”.
From cradle the human being has to solve problems: how to survive, how to socialize, how to reproduce, how to raise a family, how to prepare for death. While alive, that is to say, while solving problems, he’s intelligent. More or less intelligent, but always intelligent. Intelligence is an intrinsic feature of the brain, that is, the brain is intelligent because it’s brain. It’s a machine and intelligence is its manner of functioning.
On the other hand, the brain is not a privileged spot of intelligence. It’s more like a kind of concentrate of intelligence, product of the process of natural selection. As a matter of fact, intelligence exists without brain. Plants are a good example. Although plants don’t have brain, they can solve problems concerning survival, their location in relation to the sun for instance. Their movements are undoubtedly very slow, but they have a goal, an understandable goal, a rational goal. They are intelligent.
So we can conclude that all living beings are intelligent. Would be there, then, intelligence an emergent quality of the living stuff? I don’t think so. The living intelligence is only a complexification of a natural process that constitutes the universe. The difference between crystallization of minerals and human thoughts is a matter of grade, that is, it depends on the number of operations necessary to produce them, working basically on the same matter. In other words, crystals and thoughts grow from the same ground. Although it’s a natural phenomenon, it’s so stunning that some people assume it’s altogether divine. But that’s another matter.

posted by Roberto Velloso Eifler | 3:11 PM
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Segunda-feira, Janeiro 14, 2008  

Enquanto dou andamento ao meu romance, vou postar algumas coisas que eu já escrevi. O texto abaixo foi publicado na coluna do Rogério Mendelski, no tempo em que ele estava na Pampa.

O MILITANTE DISCIPLINADO
Assim como o padre de passeata marcou os anos 1960 e a velhinha de Taubaté os anos 1990, podemos dizer que a primeira década deste século no Brasil vai ser a do militante disciplinado. Não que ele tenha surgido agora. Esse tipo sempre existiu e teve seu apogeu no reinado de mil anos do chamado marxismo-leninismo. Mas a História seguiu inexoravelmente o seu rumo, utopias e tragédias foram joeiradas pela peneira do tempo, só que militantes extraviados nos confins do mundo (leia-se Brasil) preservaram os rituais, mais ou menos como aqueles soldados japoneses perdidos numa ilha deserta que continuavam lutando contra os EUA sem saber que o Japão se rendera 40 anos antes.
O militante disciplinado é tão disciplinado, mas tão disciplinado que faz questão de provar sua fé no partido assumindo as missões mais difíceis. E o que é mais difícil para um militante puro do que meter a mão na sujeira? Então os militantes disciplinados aceitam – não só aceitam como exigem – as mais sórdidas tarefas com os olhos rutilantes de felicidade. Quanto maior a torpeza, maior a demonstração de fidelidade à causa.
Podemos imaginar o militante disciplinado na ante-sala do chefe, enquanto espera a delegação da tarefa. Em sua cabeça, como num liquidificador, fundem-se mil possibilidades. Será que terei de assaltar um banco? Seqüestrar uma criança? Degolar um brigadiano? Quando o chefe o chama, ele se decepciona. Nem sempre existem missões para um Hércules. O militante tenta argumentar: Mas nem invadir uma câmara municipal? Nem furar uma fila de aposentadoria? Nem roubar o pirulito de uma criança?
O chefe o consola: “É só levar uma mala, mas” – e faz uma pausa misteriosa – “tem uma coisa”. Os olhos do militante disciplinado se arregalam, seu coração dispara. O chefe abaixa a voz e aproxima a cadeira: “É dinheiro sujo”. O militante hesita, não querendo acreditar: “Mas, muito sujo?”. O chefe confirma gravemente: “Muito sujo”.
O militante abandona a sala abraçado à mala, chorando de alegria.

posted by Roberto Velloso Eifler | 6:22 PM
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Domingo, Dezembro 30, 2007  

Ganhei neste Natal os três volumes da Odisséia, de Homero, primorosamente traduzida por Donaldo Schüler em edição bilíngüe.
A Odisséia foi escrita cerca de 600 anos antes de Aristóteles, de modo que sua linguagem é relativamente arcaica em relação ao grego clássico, mas comecei a lê-la, devagarinho.
Começa assim:
“Ándra moi énnepe, moúsa, polútropon, hos mála pollá
plánkte, epéi Tróies hierón ptolíethron épersen.”

Que Schüler traduziu assim:
“O homem canta-me, ó Musa, o multifacetado, que muitos
males padeceu, depois de arrasar Tróia, cidadela sacra”.
E que eu traduziria assim:
“Ó Musa, canta-me o homem de múltiplas habilidades que tantos
males padeceu depois de arrasar a cidade sagrada de Tróia”.

O poeta pede à musa para contar a história de Ulisses.

A história de Ulisses é anterior a Homero — se é que Homero existiu — e deve ser muito importante na estruturação da cultura humana, porque até hoje é repetida em múltiplas variações (vide Duro de Matar 4.0 e O Ultimato Bourne).
Assim como Ulisses, os personagens interpretados por Bruce Willys e Matt Damon são polútropoi e, depois de muitas adversidades, conseguem superar todos os obstáculos, que podem ser deuses e monstros como também o FBI, a CIA e a NSA juntos.
Hollywood é a nova voz da Musa, cantando o mesmo mito épico da origem da civilização ocidental.

posted by Roberto Velloso Eifler | 10:27 PM
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Quarta-feira, Dezembro 26, 2007  

Considerando que nunca vou descobrir a chave do Universo e, se descobrir, não vou conseguir transmitir a ninguém, estou interrompendo esta pesquisa biológico-filosófica e começando um romance.
Outra explicação é que eu seja um sujeito ciclotímico.
Para vocês terem uma idéia, aí vai a página inicial:

Tudo começou quando o doutor Gastão tentou beijar à força a enfermeira dentro do consultório. Ariane se livrou dele com um safanão e foi direto à supervisora, chorando. As demais funcionárias logo ficaram sabendo e correram até o posto de enfermagem para dar solidariedade e conhecer os detalhes.
Ariane era muito bonita e tinha uns olhos grandes que arregalava de propósito para chamar a atenção, fixando-os no interlocutor. Quando as amigas lhe censuravam isso, com aquele ciúme disfarçado de amiga, ela jurava que não fazia de propósito e, talvez, até acreditasse em si mesma, pois, afinal, as mulheres bonitas acabam perdendo a capacidade de distinguir o espontâneo do estudado em suas próprias atitudes.
Na verdade, Ariane não era enfermeira e sim técnica de enfermagem, como fazia questão de repetir Jurema, a supervisora, principalmente em horas como aquela, que serviam muito bem para expor aos olhos do mundo toda a diferença. Técnicas de enfermagem não passavam de garotas estabanadas que achavam que a maneira de segurar uma gaze poderia alterar as leis do universo. Além de segurar a gaze errado, flertavam com os médicos.
Mas Jurema tinha bom coração. Procurava passar adiante o que sabia e preparar as jovens técnicas para a vida. O que ela não aceitava, e que tinha se tornado sua grande discussão com Giovane, o diretor médico safado, era que as garotas usassem aquelas calças brancas justas, entrando-lhes pelo rego, o que emprestava aos corredores da Clínica um ar de footing de shopping. Giovane soltava sua risada catarrenta:
— Mas essas bundinhas são um santo remédio! Olhe os velhinhos lá na sala de espera, como arregalam os olhos!
Jurema achava aquilo um desaforo e não compreendia como o doutor Carlo, que era um homem sério, não exigia a troca dos uniformes. Infelizmente, pensava Jurema, Carlo tinha uma personalidade fraca e não sabia se impor ao irmão. Dizia-se que a Clínica só se tornara o que era graças à capacidade empreendedora de Giovane, mas Jurema não gostava dele. Era cirurgião, um bom cirurgião, o que não a impedia de espalhar à boca pequena a maldade de que, na Faculdade de Medicina, optavam pela cirurgia aqueles que não tinham vocação para médico.
— Por que tu não deste uma bofetada naquele velho sujo? — indignou-se Jurema. Como todas as feias, ela tinha um senso moral exacerbado.
Ariane a fitou chorando, sem entender. Não era uma questão de bofetada. Algo tinha se quebrado, uma regra, um limite, um dever ser, ela não sabia, só sabia que o mundo nunca mais seria o mesmo e se sentia extremamente indefesa.
— Eu não sei ...
— Tu não sabes de muitas coisas ainda, minha filha — resmungou Jurema, fazendo questão de pronunciar o esse da segunda pessoa porque era um dos detalhes que a distinguia das técnicas. Por dentro se remoeu de inveja da pele acetinada da outra, de seus grandes olhos, da incrível harmonia de traços que a tornavam linda sem nenhum esforço, o que parecia um acinte. Mas Jurema era prática. Engoliu a inveja — porque a vida era injusta mesmo — e decidiu aproveitar-se do escândalo para conseguir a troca do uniforme das garotas. Havia cerca de um ano trabalhando na Clínica, já aprendera os tortuosos caminhos do poder. Em vez de falar diretamente com o doutor Carlo, levaria o caso para Mateus, filho de Carlo, que auxiliava Giovane na direção médica mas era vinho de outra pipa. Mateus parecia gente boa como o pai. Precisava ainda de experiência, mas aparentemente não herdara a fraqueza de caráter do velho.

posted by Roberto Velloso Eifler | 9:46 PM
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Sábado, Dezembro 08, 2007  

Encerrei o penúltimo post dizendo que iria falar de democracia e, no último post, tratei da diferença entre ciência e religião. Pareço dispersivo mas, de fato, a diferenciação entre pensamento puro e pensamento prático é uma preparação para a análise da democracia. O que está havendo é falta de método da minha parte, mas, afinal, isto aqui não é (ainda) um livro e sim um blog.
Estava eu matutando sobre a diferença entre ciência e religião quando dou com a reportagem sobre a segunda encíclica do papa Bento 16, a “Spe salvi”, recém publicada, e que pode ser lida na íntegra no site www.folha.com.br/073341. O que me chama a atenção na encíclica é que o papa, isto é, a visão cristã do mundo representada pelo papa, sabe muito bem o que é angústia.
Quando falo em angústia, estou me referindo à angústia existencial, à angst heideggeriana, ao que o Freud maduro chamou de Hilflosigkeit (desamparo), que não passam de palavras complicadas para expressar o sentimento de vazio, de falta de significado para a vida que está sempre à espreita de um vacilo de nosso otimismo e que pode assumir proporções desesperadoras.
Em sua encíclica, Bento 16 cita uma carta de Santo Agostinho em que este escreve que, na realidade, nós só queremos uma coisa: uma vida bem-aventurada, isto é, a “felicidade”, mas no fundo não sabemos o que desejamos. Sabemos que queremos uma coisa, mas não sabemos realmente o que queremos. Disso Agostinho conclui, intuitivamente, que, no fato de não saber, sabemos que alguma coisa deve existir. Ele chama essa espécie de pressentimento de “douta ignorância” (docta ignorantia), querendo expressar com isso que sabemos que deve existir algo que não conhecemos e que para isso nos sentimos impelidos.
Percebam que a linguagem religiosa de Agostinho quase repete a linguagem filosófica de Aristóteles, quando este último fala da inteligência humana (ho anthrópinos nous) sendo atraída pela inteligência supra-sensível (ho théios nous). E a linguagem psicanalítica, com todas as suas tecnicalidades, no fundo também fala da mesma coisa quando trata do desejo, só que dá um jeito de fazer desaparecer o objeto (o “algo” que queremos mas não sabemos o que é), deixando o desejante pendurado no pincel.
O fato é que as “grandes questões humanas” são poucas e sempre as mesmas, e as intuições de Agostinho e de Aristóteles estão mais próximas do fim do arco-íris que todo o esforço teórico de Freud, embora o “objeto perdido” de Freud ainda conserve uma coerência que se perde na “falta” de Lacan, uma ausência congênita que acompanha o sujeito até a morte.
A docta ignorantia pressente algo que é, afinal, constitutivo do pensamento e, portanto, da natureza: não existe efeito sem causa. Isso já foi demonstrado por Kant. Se o desejo existe, o objeto também existe. O que não podemos é confundir o objeto fenomênico com o objeto numênico. O objeto perdido de Freud remete a um objeto primordial. Dizendo de outra maneira: todo objeto fenomênico remete ao objeto numênico. O problema com Agostinho é que ele atribui ao objeto fenomênico (Deus) as qualidades do objeto numênico. Em outras palavras, Agostinho confunde a verdade revelada com a verdade em si.
Para facilitar o entendimento desses conceitos, vou reproduzir as Figuras 11 e 2, que esquematizam o númeno (N) e o objeto (O) ou fenômeno (F), primeiro com a imagem derivada da bateria e, segundo, com o circuito recursivo.


Figura 11

Figura 2

A partir dessas imagens, vou retornar no próximo post à análise da angústia e do desejo para chegar enfim à descrição do conceito de democracia, demonstrando que este blog não é afinal dispersivo e sim metódico, embora seu método seja ziguezagueante.

posted by Roberto Velloso Eifler | 7:21 PM
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Domingo, Dezembro 02, 2007  

No último post, afirmei que o pensamento só se operacionaliza pelo antagonismo e que o antagonismo é antes posicional que proposicional. Isto é, só conseguimos pensar a partir de posições, sendo o conteúdo dessas posições (gremista ou colorado, direita ou esquerda) meramente circunstancial. Poderia ser qualquer outro. Será sempre qualquer outro.
Alguém contra-argumentaria que estou misturando coisas bem diferentes, que o futebol trata com símbolos enquanto a desigualdade de classes é real. O futebol, afinal, foi inventado, ao passo que a pobreza existe. Não haveria, portanto, como equiparar paixão clubística com visão social do mundo.
De fato, trata-se aqui de duas coisas diferentes, mas de outro gênero, cuja confusão é que gera os mal-entendidos. Refiro-me à divisão, tão velha quanto Kant, entre pensamento puro e pensamento prático. Essa diferenciação, crucial na história da filosofia, foi deixada de lado por muitas correntes posteriores, particularmente pelo marxismo, ideologizando definitivamente a filosofia. Chegou-se ao absurdo de se postular a figura do “intelectual orgânico” (um misto de teólogo e ativista).
O pensamento puro se refere à estrutura formal, posicional, da operação de pensar, e é autônomo em relação aos seus conteúdos. Ele é normativo, mas com relação ao “correto ou falso”, não ao “certo ou errado” (“bom ou mau”).
Já a normatividade do pensamento prático se refere ao valor moral do conteúdo. O pensamento prático subentende também a liberdade (a autonomia do indivíduo para escolher entre dois valores opostos), mas isso já é outro assunto.
No dia-a-dia os dois tipos de pensamento funcionam juntos, como se fossem um só, isto é, ao mesmo tempo em que decidimos se algo é verdadeiro ou falso julgamos se é certo ou errado, mas compreender a diferença entre os dois mecanismos é o que nos distingue do pensamento primitivo.
Essa distinção entre pensamento puro e pensamento prático se expressa ideologicamente no mundo moderno pela diferença entre pensamento científico e pensamento religioso. O cientista radical quer levar às últimas conseqüências a pesquisa sobre as células-tronco, enquanto o religioso radical é contra qualquer manipulação genética. Numa simplificação talvez exagerada, podemos dizer que o cientista busca o verdadeiro, enquanto o religioso busca o bem. De fato, o religioso busca o Bem porque ele já tem a Verdade, uma vez que para ele o Bem é a Verdade. Parece, então, que se trata de duas Verdades, uma empírica, buscada pelo cientista, e outra espiritual, intuída pelo religioso. Por tudo que já vimos até agora, ao longo destes posts, existe com efeito uma única Verdade, que é a mesma buscada tanto por cientistas como por religiosos, e essa Verdade não é uma proposição (nem 2+2=4, nem Deus), mas um sentimento.
Se cientistas e religiosos têm o mesmo objetivo e, ao mesmo tempo, estão separados por uma distância tão brutal, o que os distingue? Vamos tentar mostrá-lo no próximo post.

posted by Roberto Velloso Eifler | 10:43 AM
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Sábado, Novembro 24, 2007  

Resumindo o que vimos no post anterior:
Kant introduziu no pensamento ocidental a noção de que o homem é um ser normativo, isto é, um ser cujos pensamentos e ações são determinados por regras.
Wittgenstein provou, através do argumento do regresso infinito, que as regras têm de se basear numa prática.
A maioria dos pensadores modernos concorda com Wittgenstein, sendo a grande divisão agora entre aqueles que consideram tais práticas instituídas (pela sociedade) e aqueles que consideram as práticas constituídas (pelo processo evolutivo da seleção natural). Grosso modo, não deixa de ser, com nova roupagem e muita sofisticação, uma reedição da velha batalha entre educação (culture) e natureza (nature). Que, por sua vez, reprisa a luta secular entre esquerda e direita. Não estou querendo pôr todos os gatos no mesmo saco, mas apenas relembrar que os grandes dilemas da humanidade são, no fundo, sempre os mesmos, que caracterizam uma forma de pensar humana que só se operacionaliza pelo antagonismo e cujo antagonismo é antes posicional que proposicional.
Para usar um exemplo aqui do Sul: Os colorados só “passaram a existir” por causa do surgimento dos gremistas (o Grêmio foi fundado primeiro), mas os gremistas só “se realizaram”, isto é, só passaram a ser gremistas em toda a plenitude, com a “materialização” dos colorados, que já estava de certa forma subentendida na fundação do Grêmio. Em outras palavras: o antagonismo é imanente à estrutura mental e preexistia a gremistas e colorados, de modo que o surgimento dos respectivos clubes pode ser considerado como a proposicionalização de uma posição.
Esquerda e direita também são proposicionais, e sua formulação clássica (proletariado versus burguesia) é uma contingência que poderia ser qualquer outra entre os recortes possíveis na heterogeneidade de uma comunidade humana. Não se trata aqui de discutir se as “razões” da esquerda são mais “certas” que as “razões” da direita, mas de constatar que se, de repente, por um passe de mágica, todos os fatos que deram origem às divergências entre direita e esquerda fossem resolvidos, imediatamente viriam à tona, ou “seriam reconhecidos”, fatos que dariam origem a divergências igualmente cruciais entre, por exemplo, “leste” e “oeste”, “nós” e “vocês”, “deste lado do rio” e “daquele lado do rio”.
As brigas entre as torcidas organizadas dos clubes de futebol são manifestações “espontâneas” do mesmo antagonismo que opõe intelectuais de esquerda e de direita, crentes e ateus, fundamentalistas islâmicos e “ocidentalistas”. Ponho “ocidentalistas” entre parênteses porque o ocidentalismo ainda está sendo gestado pelos fundamentalistas islâmicos, assim como os colorados foram gestados pelos gremistas.
Considerando que esquerda versus direita não é a luta “certa”, mas apenas uma das formas possíveis de certa “luta”, no próximo post vamos analisar como a democracia não é um “estágio superior” da civilização, mas apenas uma forma de compromisso, com duração imprevisível, entre antagonismos irredutíveis.

posted by Roberto Velloso Eifler | 3:23 PM
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Sábado, Novembro 17, 2007  

No post anterior definimos o noema como a unidade elementar da comunicação prática, compondo-se de uma parte explícita (a proposição) e de uma parte implícita (a hipócrise).
Citamos como exemplo de noema a decisão do campeonato mundial de Fórmula 1 em Interlagos, aceita unanimemente pela comunidade dos participantes e fãs, decompondo-o em proposição (a regra de que um piloto não pode facilitar a ultrapassagem do piloto da mesma equipe) e hipócrise (a regra implícita de que um piloto pode deixar-se ultrapassar pelo companheiro desde que o faça de maneira que dê a impressão de que a regra explícita não esteja sendo desrespeitada). Em outras palavras: há uma regra de que a regra pode ser quebrada em certas circunstâncias.
Meu objetivo é estender essa estrutura noemática aos demais fenômenos sociais, particularmente à política, a fim de entender a sucessão de escândalos que estão caracterizando o governo Lula.
O ato político é essencialmente um ato noemático e há bastante confusão, muitas vezes proposital, entre hipócrise e hipocrisia. Acredito que a maior parte da confusão se deve à falta de definições precisas com respeito às numerosas atitudes normativas embutidas no que chamamos compactamente de ato político. Antes, porém, de começarmos a dissecar o ato político vamos revisar algumas considerações sobre a normatividade inerente ao ser humano.
O ser humano é essencialmente normativo, ou, em outras palavras, a normatividade faz parte da natureza humana. Isso decorre do fato de sermos animais gregários e de toda relação social estar determinada por regras. Donde decorre que a existência de regras sociais precede o surgimento da racionalidade e da linguagem.
Surgiu com Kant a noção lapidar de que a capacidade de julgar (isto é, de aplicar regras) é a forma fundamental de conhecimento. Quando dizemos ou fazemos algo, sempre seguimos regras. Só pensamos através de regras. Pensar é julgar.
Kant distingue a faculdade do entendimento (constituída por conceitos a priori, ou regras inatas) da faculdade do juízo (que é a capacidade de decidir se um fato se enquadra em uma regra dada). Pensar é aplicar regras, isto é, decidir sobre sua aplicação. A faculdade de pensar é, de fato, uma faculdade de julgar. Não conseguimos pensar a não ser através de regras. Resumindo: o pensamento é uma atividade de caráter normativo. Há uma categoria, isto é, uma regra, por trás de tudo. Tudo é certo ou errado, bom ou mau, positivo ou negativo. Essa autoridade inerente ao conceito é o que Kant chama de necessidade.
O problema com a necessidade de Kant é que ela esteve sempre vinculada a uma regra explícita. Foi Wittgenstein quem primeiro questionou esse caráter legalista, jurisprudencial, da concepção kantiana (que Robert Brandom chama de regulismo), argumentando que qualquer julgamento de certo ou errado também está submetido a uma regra que julgue se o julgador aplicou bem ou mal a primeira regra, e assim por diante, num regresso infinito, de modo que os critérios determinados por regras explícitas deverão se basear, em última instância, em critérios determinados pela prática.
Fazendo uma correlação com os conceitos que desenvolvemos até agora, podemos dizer que as regras explícitas de Kant se expressam em linguagem ideológica, e que Wittgenstein introduziu a noção de que é a adequação implícita na prática de um ato que precede sua formulação explícita em regras e princípios. O que nós acrescentamos é que a comunicação prática é constituída não só por esse explícito baseado no implícito (Wittgenstein) mas por outro elemento necessariamente implícito (a hipócrise).
No próximo post vamos desenvolver um pouco mais essas idéias até chegarmos à política brasileira.

posted by Roberto Velloso Eifler | 4:09 PM
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Domingo, Novembro 11, 2007  

Voltando à recente decisão do campeonato mundial de Fórmula 1 em Interlagos como exemplo de noema.
Está no regulamento da Fórmula 1 que um piloto não pode deixar-se ultrapassar pelo piloto da mesma equipe a fim de favorecê-lo na competição contra os pilotos das demais equipes. No entanto, se a equipe que deseja inverter a posição de seus pilotos o fizer “dentro do regulamento”, isto é, usando de um artifício como o de retardar o tempo de reabastecimento do piloto que está à frente, isso será aceito por toda a comunidade da Fórmula 1 (participantes e torcedores) como um recurso válido, desde que não seja feito de forma ostensiva. Essa é uma ressalva importante e que destaca o papel da hipocrisia como cimento fundamental da sociabilidade.
A palavra hipocrisia vem do grego hupócrisis, que significava originalmente a resposta (com sua ênfase e seus duplos sentidos) que o oráculo dava às perguntas, passando mais tarde a descrever o desempenho teatral (profissional, mas também pessoal) para enfim assumir o significado de falsa aparência, de dissimulação, que ostenta modernamente.
Para entendermos o sentido da hupócrisis na cultura grega, vamos contar uma pequena história de Demóstenes, considerado o maior orador da Grécia. Diz a tradição que um homem foi a ele a fim de contratar seus serviços como advogado, descrevendo-lhe pormenorizadamente como tinha sido atacado e espancado por determinado sujeito. Depois de ouvi-lo, Demóstenes comentou: “Mas certamente você não tem nenhum desses ferimentos que descreveu”. Então o homem se indignou e exclamou: “Eu, Demóstenes, não estou ferido!?” “Agora, sim”, disse Demóstenes, “estou ouvindo a voz de alguém que foi agredido e ferido”.
Para Demóstenes, tão importante quanto as palavras eram o tom e a ação (isto é, he hupócrisis) do falante. Nesse sentido, a hupócrisis de Demóstenes se assemelha à força ilocutória de Searle, mas eu quero antes me reportar ao significado original de hupócrisis, à resposta dada pelo oráculo a uma consulta pessoal ritualizada e que sempre tinha um conteúdo implícito que necessitava de interpretação. É com esse significado oracular que vou traduzir hupócrisis por hipócrise, e empregar hipócrise especificamente para o conteúdo implícito do noema.
Resumindo o que expus até agora: o noema é a unidade elementar da comunicação prática e se compõe de uma parte explícita (a proposição) e de uma parte implícita (a hipócrise).
Analisando a prova de Fórmula 1 de Interlagos sob o conceito de noema, podemos dizer, grosso modo, que “é proibido permitir a ultrapassagem de um companheiro de equipe só para que ele ganhe pontos no campeonato” é a proposição, enquanto que “é permitida a ultrapassagem de um companheiro só para ganhar pontos desde que os procedimentos não permitidos sejam feitos de forma que pareçam permitidos” é a hipócrise.
Vejam que os conceitos de noema e de hipócrise só são válidos dentro de um sistema, ou subsistema, de comunicação. Para os indivíduos de fora desse sistema a hipócrise será considerada uma hipocrisia. Será legal, mas imoral. No exemplo dado, a comunidade de participantes e admiradores de Fórmula 1 constitui um subsistema de comunicação, mas podemos extrapolá-la para sistemas mais amplos, como nações e culturas. Encontraremos então atos noemáticos em que a fórmula compacta “legal, mas imoral” será analisada junto com outras fórmulas da linguagem natural, como “rouba, mas faz” e “os fins justificam os meios” e enquadrada no conceito de epinoema, englobando as expressões da linguagem natural que têm os noemas como referentes. Mas isso já é assunto para o próximo post.

posted by Roberto Velloso Eifler | 10:05 AM
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Domingo, Novembro 04, 2007  

Terminei o post anterior dizendo que, ao contrário da linguagem ideológica, a linguagem prática comunica através de blocos de informações explícitas e implícitas e que a unidade mínima de comunicação da linguagem prática é o noema.
Noema é a adaptação do termo grego noema ((pronuncia-se nôema), que significa “pensamento” mas também expressa “propósito”, “intenção”. Uso-o paroxitonizado por analogia com fonema, morfema, mitema, etc., e no masculino (neutro, em grego) para diferenciar da noema fenomenológica de Husserl, já dicionarizada no feminino.
O noema guarda semelhança com o ato ilocutório de John Austin, mas tem algumas importantes diferenças. O ato ilocutório engloba a intenção comunicativa (a ênfase, a ordem, o pedido, a insinuação, etc.) que acompanha a proposição (o que é dito). John Searle define, em função disso, uma força ilocutória. O problema com o ato ilocutório é que ele se refere primordialmente à intenção consciente do falante, à força comunicativa que acompanha determinada proposição, enquanto o noema se refere, se assim podemos dizer, às “proposições implícitas”, não necessariamente inferenciais, que acompanham a proposição explícita.
A comunicação é anterior à linguagem. Embora os seres humanos se comuniquem fundamentalmente através da linguagem, não podemos confundir comunicação com linguagem. Apesar da enorme evolução da linguagem humana, ela não consegue abarcar tudo o que um indivíduo expressa quando se comunica com outro. A linguagem é composta de frases (segundo os gramáticos), de proposições (segundo os lógicos), de atos ilocutórios (segundo os analíticos), mas a comunicação é feita de noemas.
Assim como a proposição é a unidade elementar da linguagem ideológica, o noema é a unidade elementar da linguagem prática. Evidentemente que a linguagem ideológica, em sua racionalidade explícita, também “comunica”, mas, para evitar confusões, vou empregar o termo comunicação apenas com relação à linguagem prática, restringindo a comunicação ideológica, com sua ênfase no explícito, a um subtipo da comunicação em geral.
O noema, pois, é a unidade elementar da comunicação, contendo elementos explícitos e implícitos. Vejam que o próprio conceito de noema implica a impossibilidade de inteligência artificial (no sentido de “humanidade artificial”), uma vez que a inteligência artificial pode ser racional, pode ser intencional, mas não tem mente, isto é, não tem “espírito”, um “dentro” co-estrutural que possibilita a comunicação com os demais humanos. A inteligência artificial só possui a linguagem ideológica, que pode ser extremamente sofisticada, mas é “desumanizada”, no mesmo sentido das ciências exatas, caracteristicamente instrumentais. Fazendo uma generalização, pode-se dizer que as ciências exatas são ideológicas e as ciências humanas são noemáticas. Por isso todo o insucesso até agora de tornar “científicas” as ciências humanas.
Acho que neste post me estendi um pouco demais sobre a teoria, mas, no próximo, vou passar a alguns exemplos práticos.

posted by Roberto Velloso Eifler | 9:37 AM
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Domingo, Outubro 28, 2007  

Acho que estou chegando cada vez mais perto do núcleo do meu interesse. Pretendo agora expor a distinção entre linguagem ideológica e linguagem prática. Para isso, vou usar como exemplo a decisão do campeonato mundial de Fórmula 1, que aconteceu no autódromo de Interlagos no último domingo.
Um resumo dos fatos:
Lewis Hamilton, da McLaren, liderava o campeonato e tinha de chegar pelo menos em quinto lugar para ser campeão. Já Kimi Raikkonen, da Ferrari, tinha de ganhar a corrida e torcer para que Hamilton chegasse no máximo em sexto lugar para ser campeão. Felipe Massa, da Ferrari, já não tinha chance de ganhar o campeonato, mas largou na frente e disparou, dando a entender que tinha carro para vencer facilmente a prova. Raikkonen saiu em segundo, sem condições de superar Massa mas bem superior aos demais. A expectativa que se armou foi a seguinte: Massa venceria a corrida e Hamilton, chegando entre o segundo e o quinto lugar (pois tinha condições para isso), seria o campeão. Então aconteceu o inesperado: Hamilton teve problemas e ficou sem chances de chegar em quinto. À Ferrari interessava que Raikkonen e não Massa vencesse a corrida, pois só assim um piloto da Ferrari seria campeão mundial, mas o regulamento da Fórmula 1 não permite que um piloto se deixe ultrapassar pelo piloto da mesma equipe a fim de ganhar pontos. A Ferrari, no entanto, usou de um artifício “legal”, retardando o tempo de reabastecimento de Massa, de modo que Raikkonen retornou na frente e venceu a prova, tornando-se campeão.
Para um espectador não acostumado à Fórmula 1, isso configura uma fraude. Para o torcedor de Fórmula 1, esse expediente é plenamente aceito e faz parte das regras do jogo, embora infrinja o regulamento oficial. Nenhum admirador de Fórmula 1 aceitaria que Massa se deixasse ultrapassar na corrida reduzindo, por exemplo, a velocidade. Todos, porém, aceitam que essa ultrapassagem ocorra desde que o regulamento aparentemente não esteja sendo quebrado. Isso parece hipocrisia, e é, desde que se entenda hipocrisia não em seu sentido psicológico mas como atitude social normativa.
Em outras palavras, o jogo social (neste caso, a comunidade dos participantes e admiradores do campeonato mundial de Fórmula 1) sempre tem regras explícitas e regras implícitas. A troca de posições no pit stop da Ferrari, que, para um estranho à comunidade, representa uma fraude (pois infringe as regras explícitas), para os membros da comunidade está implícita nas regras do jogo, embora não faça parte do regulamento oficial. Esse é o sentido profundo do dito espanhol “Hecha la ley, hecha la trampa”, usado geralmente em seu sentido superficial, irônico, expressando a idéia de que, assim que as leis são feitas, são criadas as maneiras de burlá-las. No sentido profundo, “Hecha la ley, hecha la trampa” transmite o conhecimento comum de que, no momento em que é criada a lei explícita, são criadas leis implícitas que se aplicam junto com ela. A comunicação humana se faz por meio de blocos de informações, e esses blocos incluem informações tanto explícitas como implícitas. Não existe na prática uma informação explícita isolada. As informações explícitas isoladas só existem teoricamente e correspondem ao que eu chamo de linguagem ideológica.
Ao contrário da linguagem ideológica, a linguagem prática comunica através de blocos de informações explícitas e implícitas. A unidade mínima de comunicação da linguagem prática é o noema, como explicarei no próximo post com a ajuda da Fórmula 1 e do futebol.

posted by Roberto Velloso Eifler | 10:14 AM
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Terça-feira, Outubro 23, 2007  

Vimos no post anterior que, como indivíduos, somos fundamentalmente práticos, e que, em nossa prática, agimos tanto idiotipicamente como arquetipicamente. Dizendo de outra maneira, temos esquemas de ação desenvolvidos (isto é: inatos + aprendidos), tanto pessoais como coletivos, que nos permitem improvisar ante situações objetivas, transubjetivas e ideológicas. É a partir dessa dimensão tática que poderemos deduzir, mais adiante, o conceito de liberdade.
A fim de caracterizar melhor nossas idéias, vamos dispô-las em forma gráfica e, para isso, vamos atualizar a Figura 14, acrescentando-lhe o Skema:


Figura 17
N = Númeno
s = sexualidade
Kl = Kalon (Bem)
Kk = Kakon (Mal)
Kr = Kraton (Poder)
Z = Zoe (Vida nua)
0 = objeto

O Skema constitui um pequeno território do campo do Eidos que inclui as microformalidades práticas e que é evolutivamente anterior às estruturas transubjetivas.
A flecha do desejo (ou intencionalidade) que parte do númeno, tendo ultrapassado o imprinting seletivo da sexualidade, é aparelhada taticamente no Skema antes de atravessar as grades fundamentalmente estratégicas do poder (Kraton-Zoe) e da moral (Kalon-Kakon).
A dimensão ideológica está lá fora do Eidos, ao nível do objeto. Isso não a torna menos importante, uma vez que é através dela que os indivíduos se comunicam.
Talvez seja hora de eu me estender um pouco mais sobre essa dimensão ideológica, que é, afinal, o principal objeto de estudo deste blog, deixando um pouco de lado a análise da moral e do poder, pois já consegui dissociar essas duas estruturas da ideologia. Mas convém deixar bem claro uma coisa: moral e poder são posições relativas e são experienciadas pelo ser humano como sentimentos. O Poder e o Bem são sentimentos, assim como a Verdade. A idéia correspondente à Verdade é que é ideológica, assim como as idéias correspondentes ao Bem e ao Poder.
No próximo post vou me estender um pouco mais sobre a dimensão ideológica e mostrar, a partir do exemplo da decisão do campeonato mundial de F-1 em Interlagos, certas peculiaridades da comunicação humana.

posted by Roberto Velloso Eifler | 6:44 PM
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