IDEOLOGIA e BIOLOGIA
How can I tell what I think until I see what I say? (E. M. Forster)


Sábado, Outubro 24, 2009  

Para analisar, portanto, os seres humanos, vamos descartar os conceitos de Bem e de Mal e vamos considerar apenas os comportamentos humanos, divididos grosseiramente em dominadores e solidários.
Na verdade todas as elaborações morais da humanidade derivam de sua origem no bando. Obedecer cegamente ao líder e ajudar os companheiros, não é esse o comportamento de uma alcateia de lobos? Pois vejam bem que é o pressuposto de todas as religiões, por mais elaboradas que sejam suas doutrinas. E vejam então também que tanto para os lobos como para as religiões (isto é, os homens que as seguem) o Bem e o Mal são relativos, porque o Bem é seguir o líder e auxiliar os companheiros, enquanto o Mal são os Outros, isto é, as outras alcateias, as outras religiões e, por dedução, as outras nações, os outros times de futebol, etc.
Fazendo um parêntese, há correntes no pensamento moderno (v. Peter Singer) que defendem uma evolução do círculo da moral, tendendo a envolver os seres que não pertencem a nosso grupo. Mas isso não passa de uma moda, uma ideia da cultura ocidental de um determinado tempo histórico, que pode até se tornar um ideal, mas não está na realidade da história humana. Pode até se tornar predominante, mas muitas tendências podem se tornar predominantes e o futuro da humanidade é uma incógnita. Se os australopitecos pudessem manipular o futuro, eles não teriam querido tornar-se homens. Para um australopiteco, nada melhor que ser um australopiteco. Isso vale para o ser humano atual, de modo que o ser humano futuro terá valores inimagináveis para nós. Talvez seja muita ingenuidade imaginar um futuro fraternal. Ou talvez seja apenas a tendência natural de um ser de alcatéia.
Há muitas discussões sobre a origem da fé e me parece que existe uma tendência entre os neurocientistas a considerá-la um fenômeno totalmente novo, surgido após a hominização. Já o meu darwinismo de observador atento me sugere que a fé não passa da adaptação, na mente humana, do mesmo impulso que leva o animal gregário a seguir o líder da alcateia e até a morrer em defesa do seu bando. É um impulso profundamente enraizado e imune à razão. Por que não gostamos dos homens-bomba muçulmanos? Acho que apenas porque eles representam o Outro, pois não há maior sacrifício que um indivíduo possa fazer pelo seu bando. Para nós ocidentais, porém, isso é inaceitável. Temos formas mais “civilizadas” de eliminar o Outro. Não estou com isso defendendo os homens-bomba. Estou apenas dizendo que seus métodos são diferentes dos nossos, mas seus objetivos são os mesmos: impor a hegemonia das ideias de seu bando, isto é, de sua cultura. Para nós, ocidentais, nossa cultura é o Bem e os homens-bomba representam o Mal. Eu, pessoalmente, desejo que todos os homens-bomba explodam junto e desapareçam da face da Terra, mas sou racional suficiente para entender que, se estivéssemos na posição deles, faríamos exatamente a mesma coisa. Os seres humanos são todos iguais (tirante pequenas idiossincrasias). Com isso quero dizer que o Bem e o Mal são relativos. Mas nem por isso menos importantes, como tentarei explicar no próximo post.

posted by Roberto Velloso Eifler | 7:18 PM
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Domingo, Outubro 18, 2009  

Vamos fazer uma pequena meditação sobre o bem e o mal. Espero que isso me leve um pouco adiante de Nietzsche.
Observando a natureza, constatamos que há dois procedimentos bem sucedidos na preservação do indivíduo e da espécie: o dominador (que também poderia ser chamado de predador) e o solidário.
O ser humano pode agir tanto como predador quanto como solidário, mas há uma tendência cultural que o empurra a ser solidário. A origem dessa tendência pode ser buscada nas religiões, mas as religiões a herdaram de tempos passados, provavelmente da forma de bando com que os grupos humanos se organizaram, semelhantemente a outros animais gregários. Os bandos preservam a figura do dominador e estimulam o comportamento solidário.
Quem usa a religião para explicar – e exigir – o comportamento solidário dos homens já tem uma solução para o problema. Religião é um tema complexo mas, para fins deste ensaio, basta dizer que ela sempre aponta Deus como resposta. Ora, como já pudemos observar da atuação das mais importantes religiões do mundo, Deus serve como desculpa para tudo, tanto para o amor como para o ódio, tanto para a solidariedade como para a dominação. Deus, sem dúvida, é necessário à humanidade, mas nossa investigação vai além de Deus.
Retornando à primeira frase deste post, vejam que minha linguagem – para não dizer meu pensamento – já está culturalmente determinado, porque associo automaticamente o bem ao comportamento solidário e o mal ao predador. Vou repetir um lugar-comum, mas a verdade é que o predador só é mau do ponto de vista do predado (o leão visto pela gazela). Nós, como humanos observadores, não consideramos o leão mau. Mas consideramos Hitler e Stálin maus, porque nós somos os predados. Do ponto de vista de um observador neutro, extra-terreno, seriam eles maus? Ou apenas peculiares? Dominadores instintivos seguindo sua lógica de conquistadores? Tenho visto cada vez mais filmes nos canais de tevê paga fazendo perfis “benignos” de Gengis Kahn, destacando o aspecto civilizatório de suas invasões. À distância de alguns séculos, Gengis Kahn se parece cada vez mais com o leão entre gazelas do National Geographic.
Vamos retirar, pois, menções ao bem e ao mal e vamos falar apenas de comportamento dominador e comportamento solidário. Ambos podem despertar as mais profundas emoções tanto no portador como nos circunstantes, de modo que excluiremos as emoções e vamos analisar apenas os comportamentos e suas consequências. Mas isso é assunto para o próximo post.

posted by Roberto Velloso Eifler | 11:38 AM
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